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Vive-se cansado.

  • Foto do escritor: Gabriela Vicinanca
    Gabriela Vicinanca
  • há 5 dias
  • 2 min de leitura

O burnout, termo que pode ser traduzido do inglês como algo próximo de “combustão completa” ou esgotamento, tornou-se um adoecimento característico da sociedade neoliberal em que vivemos. A internalização de ideais cada vez mais elevados de produtividade, somada à exigência de alta performance individual, nos convoca a funcionar como se dispuséssemos de tempo e energia ilimitados.


A jornada de trabalho, que antes se restringia a oito horas, passa a se estender por mais algumas, para que seja possível concluir as demandas do dia. O trabalho invade o fim de semana, na tentativa de começar a semana seguinte com mais tranquilidade. Pouco a pouco, deixa de sobrar tempo para outras atividades que não sejam as do próprio trabalho.


O ideal de uma hiperpotência pessoal, que não possui limites, passa a determinar a rotina. Pela manhã, recorre-se ao café ou a algum estimulante para iniciar o dia de trabalho; à noite, busca-se algum recurso para conseguir se desligar dele — seja passando horas no celular, seja tomando algumas taças de vinho — e, não raro, recorre-se a medicamentos para que o sono venha. Para sustentar esse ritmo, o indivíduo muitas vezes se afasta de si mesmo: deixa de sentir, anestesia os afetos, como se uma certa desassociação fosse necessária para continuar funcionando.


Mas chega um momento em que algo falha. O afastamento já não é mais suficiente, e as substâncias não apaziguam. Vive-se cansado. A energia se esgota, o corpo sucumbe. O ideal de alta performance deixa de sustentar o indivíduo — e o adoecimento aparece.


Esse cansaço nem sempre diz respeito apenas à quantidade de trabalho. Muitas vezes, também se relaciona com a posição que o sujeito ocupa na relação com o outro e com a forma como a pessoa se vê implicada nas demandas do mundo.


No processo analítico, compreende-se que essa posição é frequentemente assumida de maneira inconsciente. É também nesse espaço que pode surgir a possibilidade de interrogá-la e, pouco a pouco, construir outras formas de se situar diante do outro e das exigências que o atravessam.


 
 
 

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